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" Eu prometo que vou lhe retribuir tudo o que você faz e representa na minha vida..."

quinta-feira, julho 13, 2006

Gotas de Solidão

Hoje acordei com vontade de dormir, não sei se conseguiria, mas torci para que o frio me ajudasse e me ajeitei no cobertor... Contava com o dia que nada me proporcionaria fazer e com a hora que ainda mostrava ser cedo para levantar e praticar qualquer atividade monótona. Então me lembrei do sonho que estava tendo e torci para que, ao fechar os olhos, ele reaparecesse de onde parou, ou melhor, foi interrompido por um estampido que de súbito fez-se acabarem todas as minhas esperanças de novamente me sentir feliz.

No sonho eu caminhava meio intranqüilo por ruas estranhas à minha lembrança, mas familiares naquele momento, sentia-me um pouco angustiado até chegar num local que até agora penso ser algo que futuramente, ou num passado atemporal deverei conhecer, embora nunca consiga acreditar direito em tais coisas tão inexplicáveis mas tão cultuadas, e respirei fundo quando me deparei com a casa de destino. O seu formato meio rústico de repente me deu uma aceleração no peito referente a uma corrida desenfreada de dois quilômetros. Parei e observei pela única vez naqueles instantes como estava o dia, ou melhor, o fim de tarde nublado com pequeninas gotas de chuva tão fina a ponto de somente umedecerem os meus cabelos e embaçarem as lentes dos meus óculos. Não sentia frio, mas o inevitável momento me dava um tremor nas pernas e uma insegurança que me deixavam confuso. Pensei em ir embora e esquecer que naquela noite anterior havia ouvido daqueles lábios totalmente embriagados de vinho que eu era tudo de mais belo e completo para viver ao seu lado e que eu certamente seria a pessoa que a acompanharia durante anos ou séculos ou minutos se assim eu quisesse.

Durante segundos eu lembrei de uma noite inteira onde a magia conduzia uma lua que agora teimava em se esconder para não ter que testemunhar tais palavras, e eu procurava em vão lembrar quando havíamos começado a trocar simples críticas à noite e opiniões sobre o mundo por revelações sobre nossos medos e segredos como se tivéssemos nos conhecido há tempos e não a poucos instantes ocasionalmente graças a um pequeno esbarrão num balcão de bar.
No bar eu assistia a movimentação engraçada de pessoas em lados opostos de um balcão que a toda hora recebia cuidados graças a garrafas e copos que revezavam de posicionamento e de mãos enquanto notas e moedas repartiam esse espaço com porções de batata-fritas e bolinhos gordurentos e enjoativos, e onde o som alto e a falta de comunicabilidade entre os clientes e os atendentes provocavam ora sussurros ora gritos estridentes em meio a pedidos que eram ou não atendidos devido ao estardalhaço de tudo.

Eu rabiscava um guardanapo com pequenas gravuras indescritíveis a olho consciente e repartia com a minha monótona tristeza coerente, um copo de uma bebida com a qual tive o prazer de escolher graças a um simples sorteio feito por meus dedos apontando o primeiro nome que observei no cardápio.

Se ela estava ali ao meu lado e por quanto tempo estava, realmente eu não sei dizer, só sei que o primeiro contato entre nós deu-se graças a tinta da caneta que de vez em quando falhava e me proporcionava balançar a mão num gesto pouco significativo, esbarrando assim no braço dela em uma dessas vezes.

Então percebi que tudo poderia ser um engano e retruquei um pouco, dei alguns passos laterais e reconduzi meu corpo ao caminho de retorno para meu início, quando algo forçosamente guiou minha mão ao meu bolso e me fez tirar dele um pedaço de guardanapo onde algumas palavras escritas com letras trêmulas mas belas indicavam este endereço e a frase final seguida de uma mancha de batom me fizeram novamente parar e retomar meu destino: "me procura logo para sermos felizes"

Lembro que depois de horas de atenciosa conversa revelativa, estive prestes a lhe confessar as mesmas palavras que ouviria dela momentos depois e, como de súbito, um outro alguém se aproximou de nós e identificado por ela mesma como um irmão querido a levou embora de minha companhia sem que antes ela não deixasse de preencher o tal bilhete agora tão delicadamente seguro pelas minhas trêmulas mãos.

Decidi observar a casa mais uma vez e lembrando de que o momento era para desistir da insegurança que rondava todo o que eu fazia, e esquecer que tive casos de amor antigo que me fizeram sofrer, resisti a uma voz que insistia em dizer que esta seria apenas mais uma e não a única e que apenas minha libido ganharia mais alguns minutos de satisfação e o meu coração penaria com mais anos de solidão e resolvi tocar a campainha.

Os segundos que se sucederam pareciam eternos e eu era capaz de dizer de que ponto exato no céu vinham as gotas que molhavam meu rosto e que apenas deixaram de observar o branco acinzentado das nuvens quando uma voz invadiu a minha mente como um toque de anjo...

"Que bom que você veio"

Aquela voz doce tomou conta de mim e o sorriso que a completava davam pela primeira vez em muito tempo a certeza de que eu tinha feito a escolha certa...

(pausa)

Meu braço, involuntariamente é claro, esticou e derrubou o copo de café vazio que eu havia deixado sobre a cabeceira da cama antes de dormir e se espatifou no chão com um barulho propagado pela madrugada totalmente silenciosa e fria. Olhei a cena dos cacos de vidro no chão e tive a impressão de que eles riam de mim por me fazer interromper de tão hipnotizante visão.

Walter Sete

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