O Arlekim

uma forma de troca de idéias

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Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

" Eu prometo que vou lhe retribuir tudo o que você faz e representa na minha vida..."

quarta-feira, outubro 11, 2006

" 09:47 a.m. "

Chove forte...
Não sei se a natureza estava jogando a favor ou contra, mas essa chuva veio em boa hora, a neblina fria, a água contra o chão sujo, e eu numa espécie de cabana olhando para o nada, num local sombrio, mas, ao mesmo tempo, confortavelmente aconchegante, situação amenizadora mas surreal para o que vivi há alguns minutos.
É estranho correr em uma direção desgovernada, mas o mais obscuroseria fugir do próprio medo de arriscar, acho que agora sei o que representa um pânico ou fobia pois, repentinamente, acelero e diminuo os passos e, ao mesmo tempo, sinto como se estivesse sendo perseguido, não sabendo direito a razão exata, ou ignorando o que imagino, em prol do medo de estar enganado. O que parece constatação é que ela passava com a delicadeza de quem sabe que está sendo observada, e eu já tinha planejado há dias o que fazer, pois tomei nota sobre todos os passos, procurando da forma mais discreta possível, saber tudo sobre ela, coisas simples como o nome, idade e os gostos preferidos de música e literatura, além de seus programas de TV favoritos e hobbies casuais, tudo por intermédio de colegas fofoqueiras, que em troca de trabalhos estra-classe ou resolução de tarefas difíceis, me deram um raio-x quase completo do que ela faz durante o dia e assim pude melhor observá-la e admirá-la.
Planejado o momento exato, de lhe entregar o bilhete revelativo dos meus sentimentos mais puros, e sabendo de cor e salteado a rotina que ela se impunha, talvez propositadamente usada para arrebatar corações solitários e poéticos, decidi apenas admirá-la me precavendo de que ela sabe todas as artmanhas e impulsivamente sabe usar seu instinto para dominar o outro, numa clara demonstração de superioridade.
Eu sabia o tempo exato que ela levava para sair da sala-de-aula e se dirigir ao corredor que leva à escadaria onde, no final, chega-se ao pátio interno, após um certo tempo ela chegaria ao terceiro banco de quatro lugares localizado proximo à parede esquerda do portão de saída. Ali chegando, ela se deteria por dez ou quinze minutos, no maximo, esperando pela dispersão dos alunos que, quase ao mesmo tempo, saíam das salas e tentavam os mais distintos rumos e, nesse momento seria inoportuno abordá-la, poisresignava os pensamentos em fatos distantes, devido ao olhar disperso,que se direcionava a um horizonte ignorado.


Mas, após esse tempo, ela normalmente acompanhada de duas ou três colegas, ia em direção à cantina, onde eu a vi pela primeira vez, e o que mais me chamou a atenção, foi o olhar dominador e tenro que ela me destinou, me dando a sensação de que eu seria unico e especial naquele instante, e após isso, um leve sorriso me daria a constatação de que todo aquele singelo gesto era realmente destinado à mim, ainda que por poucos e lentos segundos que se eternizaram por dias...

Inclusive, graças a isso, cheguei a uma observação:

" Podemos definir, através do tempo de olhar, o grau de interesse que se desperta em uma pessoa ao encontrar com outra, seja de subito, seja num encontro casual ou em um local movimentado. Se apessoa leva até 5 seg., ela apenas observou o posicionamento do oposto em relação ao espaço ocupado, talvez por estar distante de tudo, ou por não haver um interesse maior, em nada a mais, do que um simples desvio de rota em relação ao ambiente.

Agora, se ela leva da 5 a 20 seg., essa pessoa teve o espaço de tempo bom para assemelhar no que a outra lhe interessaria, por curiosidade ou por desejo, e tentou, nesse tempo, definir as idéias que formulou sobre tal pessoa. Mas se esse olhar leva mais de 20 seg., a pessoa, com certeza, sabe o que vê e deseja, e requer a atenção que dedica, embora muitas vezes desvie os olhos, por saber que está sendo vigiada, e retomará a ação quanta vezes for necessária, para atrair para si o objeto desejado, e não sendo mais eficaz esse tipo de abordagem, a pessoa tentará com um gesto casual ou um sorriso, a abertura para uma conversa ou diálogo informal, deixando claro que sabe que foi notada mas, displicentemente, quer saber a razão..."

Eu estava trêmulo, com o bilhete na mão e decidido a aguardar o sinal terminal do intervalo e, antes do primeiro lance de escadas, a abordar de forma inesperada mas simples, lhe entregendo o bilhete, embora inseguro da sua reação, por talvez ser um grato engano tudo que imaginei sobre ela, e seria tarde demais imaginar tudo isso agora, posto que, ao olhar para o relógio, percebo que tenho menos de 5 minutos até o toque do sinal.


E estou na parede oposta à dela, no pátio, a observá-la, e não sei se ela percebe, e finge que não vê, ou se ela realmente não consegue me ver, mas fico ali a decorar os movimentos delicados e sutis que ela desenvolve. Aquele rosto angelical, que em nada lembra uma menina de 13 anos, por parecer ainda mais madura do que é, todavia me retenho um pouco, antes do ato, talvez dominado pela timidez.

Quando o sinal toca, ela se vira em direção às escadas, e eu, tomado por um impulso de euforia juvenil, me aproximo dela e toco seu ombro antes do espaço planejado, e ela, surpreendida pela ação, vira assustada e se afasta, mas ao me reconhecer, dedica o mesmo olhar e sorriso daquele dia tão especial, me dando a coragem necessária para, lhe estender a outra mão, entregar o bilhete...


...e depois correr...


Walter Sete

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